Quarta-feira de Cinzas – Ano B – 22/02/2012

Cinzas2

REFLEXÃO BÍBLICA – QUARESMA – 4ª. FEIRA DE CINZAS – Ano B – 22.02.2012

Voltai para mim de todo coração!


Evangelho: Mt 6, 1-6 . 16-18

1. Esmola, jejum e oração no oculto. Mateus 6,1-18 comporta três reflexões de Jesus com relação às boas obras judaicas [a esmola: 6,2-4; a oração: 6,5-6; o jejum: 6,16-18], com o Pai Nosso intercalado no meio [ vv.7-15].

2. As três “boas obras” – esmola, jejum e oração – devem ser feitas por seu valor intrínseco, que só Deus vê, e não para serem vistas pelas pessoas, clama Jesus.

3. A implantação do Reino de Deus, o Reino da Justiça deve ser a partir do coração de quem acredita. “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça diante dos homens, só para serdes vistos por eles” (v.1).

4. – Quando deres esmola

não toques trombetas
nas sinagogas e nas ruas
para seres louvados … já recebeste tua recompensa v.2

- Quando orares

não faças oração em pé
nas sinagogas e esquinas
p/ver que estás jejuando … já recebeste tua recompensa v.5

- Quando jejuares

não faças rosto sombrio
desfigurando o rosto
p/ver que estás jejuando … já recebeste tua recompensa v.16

5. – Quando deres esmola

não saiba a esquerda
o que faz a direita … e teu Pai, que vê o escondido, te recompensará – v. 3-4

- Quando orares

entra no teu quarto,
fecha a porta e
reza a teu Pai em segredo … e teu Pai, que vê o escondido, te recompensará – v. 6

- Quando jejuares

perfuma a cabeça,
lava o rosto,
p/ que não percebam … e teu Pai, que vê o escondido, te recompensará – v.17s

1ª. Leitura: J1 2, 12 – 18

6. O texto do profeta Joel exorta à penitência (=voltar: vv.12-14), ao jejum (v.15) e à súplica (vv.16-17). O texto se liga aos versículos 13-14 do capítulo 1: “vesti-vos de luto, sacerdotes; gemei, ministros do altar; vinde dormir em esteiras, ministros do meu Deus, porque faltam oferta e libação no templo do vosso Deus. Proclamai um jejum, convocai a assembléia, reuni os chefes e os camponeses no templo do Senhor, vosso Deus, e clamai ao Senhor”.

7. “Convertei-vos a mim de todo o coração, com jejum, com pranto, com luto” (v.12). Retornai a mim, mas não com uma volta interesseira e falsa, mas com um re-torno sincero a partir do interior, da alma, do coração.

8. “Rasgai vossos corações, e não as vossas vestes” (v.13a). “Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, pois é compassivo e clemente, paciente e misericordioso”(v.13b). Os atributos de Deus são tomados de uma fórmula litúrgica freqüente: ver Jr 4,4; Ex 34,6; Sl 86,15; Sl 103,8.

9. É uma convocação para todo aquele que quiser ouvir. Tocai a trombeta … ordenai um jejum … proclamai uma reunião sagrada, uma celebração … reuni o povo …. convocai a comunidade (vv.15-16). Para que o povo volte ao seu Deus e Senhor, toda comunidade é convocada a se colocar perante esse Deus e renovar-se a partir da conversão da alma,

10. E o texto termina: “O Senhor encheu-se de zelo por sua terra e teve piedade de seu povo” (v. 18). Se o povo voltou, foi respondendo ao chamado do Senhor – e não por iniciativa própria. Até para voltar para o Deus da Aliança é preciso que o Senhor tome a iniciativa. Aliás, … a complacência, a misericórdia e o perdão brotam sempre e primeiramente do coração de Deus.

2ª. Leitura: 2 Cor 5, 20 – 6, 2

11. Paulo lança também para nós a exortação: “deixai-vos reconciliar com Deus” (v.5,20). E insiste: “este é o tempo favorável!” (v.6,2). Parece apresentar-nos um Deus de pé e pronto para perdoar, simplesmente aguardando que seu povo se “volte” para ele. Só Ele pode perdoar. Mas é indispensável a abertura de coração. Deus não invade nunca! (nem para perdoar … ele sempre pede licença para entrar num coração arrependido).

12. “Somos embaixadores de Deus”, quer dizer, somos enviados a proclamar, a convocar e a levar o perdão do Senhor.

13. E Paulo insiste: “exortamo-vos a não receber em vão a graça de Deus” (6,1). É tanta a insistência de Deus em querer perdoar que só pode vir mesmo de um Deus criador, reconciliador, salvador e Pai. É preciso entrever aqui um Deus que trata seu povo não como criaturas, mas como filhos amados. Paulo iria dizer: filhos amados no Filho amado!

14. “No tempo favorável eu te ouvi, e no dia da salvação vim em teu auxílio” (6,2a). E quantas vezes nos colocamos como aqueles que se voltam para cobrar: onde estás, Senhor, que não me escutas? Onde estás que não vês minhas lágrimas? Não é onde Deus estás, … mas onde nós estamos. Estamos em lugar errado, com dispo-sições enganadas.

15. Pense comigo: não dá gosto pensar que “o nosso Deus” nos diz a cada um de nós: no tempo favorável eu te ouvi, eu vim em teu auxílio! Você não percebeu mas eu estava presente, caminhado ao teu lado e te amparando!

R e f l e t i n d o . . .

1. Paulo, na segunda leitura, vai proclamar o “tempo da reconciliação” com Deus. Esse tempo é nesse ano, nesse mês, é agora. Não podemos deixar para depois. É Deus visitando-nos, visitando nossa vida para transformá-la (é lógico para melhor!).

2. E toda liturgia vai insistir na penitência verdadeira e autêntica: “rasgar o coração, não apenas as vestes” e no caráter interior do jejum, juntamente com as “boas obras”, a esmola e a oração. Aliás, sempre a mensagem de Jesus vai insistir e recordar na verdade do coração: hipócritas, quem vos ensinou a fugir da ira de Deus?

3. A mortificação e o jejum são meios para libertar-nos dos apegos e da vida superficial, mas não é fim em si mesmo. O fim é a conversão, a volta para Deus, que, na 2ª. leitura, ganha um tom de esperançosa alegria, bem de acordo com o evangelho que manda usar perfumes para não ostentar o jejum. Conversão é en-contro com Deus que se volta para nós, ou que já está (há muito tempo, isto é, sempre) voltado para nós.

4. A oração do dia e das oferendas falam do combate ao vício e do domínio de si. Mas o importante do jejum não é o que fazemos , mas a maravilha que Deus opera em nós. Nossa parte é simplesmente preparar-nos para receber a graça. A conversão não é tanto fazer algo quanto deixar-se fazer por Deus (prefácio).

5. Na Quaresma vamos dar maior chance a Deus para agir em nós, refreando nossos instintos egoístas (todos eles, também os do ter e do dominar), tentando acompa-nhar Aquele que se liberou completamente para, em obediência a Deus, doar-se por amor a nós.

6. Impondo restrições aos nossos instintos abrimos em nosso coração mais espaço para Deus e seus filhos (que, por acaso, são nossos irmãos!). A melhor penitência é sempre abrir espaço no coração (todo espaço do coração) para Deus e para os irmãos.

7. Estamos na Quaresma, um tempo novo: tempo de apelo para olhar a própria vida, a fim de ouvir os apelos do Senhor para nos reconciliarmos com ele, com os outros e com a natureza.

8. Mateus, – ao falar de esmola, jejum e oração, – não dá conselhos para esse tempo, mas indica a vivência diária no seguimento do Senhor: é o caminho pro-posto aos seguidores do Reino da Justiça, em cumprimento à vontade do Pai.

9. Esmola, oração e jejum:

9.1. A esmola consiste em ir além da doação de trocadinhos; ela envolve a entrega de si com “o que se é” e “o que se tem”. Esmolar é dar a si mesmo.

9.2. A oração, conforme diz Mt a seguir (6,7-15), não é a multiplicação de fórmulas, e de muitas palavras, como se fosse uma mágica para forçar Deus a dar o que queremos. Oramos, não porque o Pai desconhece nossas necessidades e an-seios, mas sim porque queremos nos entregar a ele para melhor conhecer a sua vontade sobre nós, sobre os outros, sobre a natureza.

9.3. O jejum: a lei judaica impunha o jejum durante a festa da expiação (Lv 16), porém, os fariseus faziam duas vezes por semana com alarde e sinais visíveis. Inte-ressante ver Lv 16,29ss: “no dia dez do sétimo mês fareis penitência … porque nesse dia se faz a expiação por vós, para purificar-nos. Ficareis puros de todo pecado diante do Senhor”.

9.4. Jesus apresenta um modo totalmente novo de jejuar, pois vai direto ao coração, provoca uma mudança de vida (do ser e do agir). Perfumem a cabeça e fiquem com o rosto alegre: perfume e alegria só podem ser fruto do encontro e da pre-sença de um Deus no coração.

10. Gestos de reconciliação nos levam até Deus. O que foi rompido precisa ser reatado. Quando se foi embora, é preciso voltar. Quando se deu as costas, é necessário virar-se e retornar. Deixem-se reconciliar com Deus, diz Paulo. Reconciliação, reatar aliança envolve duas partes: Deus que é sempre fiel e sempre toma a iniciativa de oferecer o perdão e de chamar o pecador … e o pecador que só tem uma atitude a tomar: voltar, olhar para Deus e abrir-se para acolher seu perdão.

11. Joel, ao chamar o povo de Deus à conversão pelo jejum e penitência, apresenta a compaixão, a clemência, a paciência e a misericórdia de Deus. O perdão requer do ser humano um coração novo, manifestado num arrependimento sincero, autêntico e verdadeiro.

12. Mas coração novo só acontece com um coração aberto à Palavra de Deus. Amolecer o coração é necessário para que contemplemos a Deus na sua jus-tiça. Isso significa, de um lado, a “aceitação plena da vontade do Deus de Israel, e, por outro, a equidade em relação ao próximo (cf. Ex 29,12-17).

13. Conversão é o caminho da vida cristã, a fim de que a Ressurreição seja uma realidade salvífica em nossas vidas, relações e estruturas. O tempo da Qua-resma é um tempo privilegiado de encontro com a Palavra de Deus que nos leva e prepara para o grande acontecimento da nossa fé, o memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor, a Páscoa.

14. Oração: Ó Deus, Pai e Mãe de ternura, que tudo vês em segredo e que tudo acompanhas com teu amor, olha para nossa comunidade reunida para o início da Quaresma. Apresentando-nos, na fragilidade de nossa existência, conce-de-nos, ó Deus, compassivo e misericordioso, que a penitência nos fortaleça no combate contra o mal e nos ajude a transformar o mundo de sofrimento, em que vivemos, em lugar em que teus cuidados de Pai se manifestem. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

——————————————————————-
CAMPANHA DA FRATERNIDADE – 2012

Tema: “FRATERNIDADE E SAÚDE PÚBLICA”
Lema: “QUE A SAÚDE SE DIFUNDA SOBRE A TERRA”

1. A Campanha da Fraternidade deste ano focaliza o tema da saúde. Um aspecto fundamental da vida da pessoa humana, que tem direito à uma vida digna, por- que essencialmente é filha de Deus, resgatada pelo sangue precioso do Filho de Deus. Vida digna de filho de Deus = pessoa com saúde.

2. E no nosso Brasil esse aspecto é lamentável, deplorável. Nem é preciso citar fatos. Então, essa campanha não se endereça a quem está doente, mas a todos os cristãos (=responsáveis pelos seus irmãos) que tem o dever de lutar para exigir dos poderes públicos uma saúde não só decente, mas muito mais que isso, digna da pessoa humana, digna de um filho do Criador do mundo.

3. Como é lastimável (… e irritável) ver os homens públicos (=eleitos para o povo) se locupletando com altos salários (às custas dos impostos do povo) e não se importarem -um mínimo que seja – com a saúde do povo. Aliás, me esqueci … eles não usam o serviço público de saúde … tratam-se nos melhores e mais renomados hospitais particulares … e isso também às custas do dinheiro de quem sofre para pagar os impostos !

4. Pelo que se vê essa Campanha de “Fraternidade” merece um empenho (além do normal) dos cristãos para exigir um mesmo tratamento para todos, pois, até a Constituição Brasileira (!), diz que todos são iguais !. Para nós cristãos, mais do que iguais, somos irmãos . . . e irmãos às custas do sangue do Servo Sofredor.

5. Esta CF nos convida a: – sensibilizar as pessoas para o conceito de bem viver, para hábitos saudáveis; – sensibilizar para o serviço aos enfermos, a atenção às suas necessidades e a integração na comunidade; – criar e dinamizar a pastoral da saúde nas paróquias; – difundir dados sobre a realidade da saúde; – incentivar a discussão sobre o problema da saúde pública (não a que está longe, mas a que está ao nosso lado, na nossa cidade); – reivindicar justo financiamento da saúde pública; – qualificar a comunidade para acompanhar a gestão publica dos recursos públicos (=com transparência), especialmente na saúde. Talvez João Batista gritasse: você, cristão, acorda: está na hora de desacomodar-se (=agir) para que a saúde dos seus irmãos seja atendida. Essa é tarefa para você que tem saúde .. (e não para quem está doente). Penitência para você nessa quaresma é isso!

Material Elaborado pelo Prof. Ângelo Vitório Zambon
Comissão Arquidiocesana de Liturgia – Campinas

Fontes: Bíblia de Jerusalém, Bíblia do Peregrino, Dicionário Bíblico (Mckenzie), Liturgia Dominical (Konings), Dicionário de Liturgia, Vida Pastoral, Homilias e Sugestões (BH), Roteiros Homiléticos (Bortolini).

Comentários via Facebook:

1 Comentário

  1. santos

    qua 22nd fev 2012 at 12:53

    Parabéns pelo enfoque e excelentes comentários, que ajudarão aos agentes de liturgia e pastoral nesta celebração de cinzas e todo o tempo quaresmal.
    Um abraço, paz e bem.

    Responder

Enviar comentários

Copyright © 2010-2012 – Setor ImprensaArquidiocese de Campinas – Todos os direitos reservados. Designed by Pe. Rodrigo