1º Domingo da Quaresma – Ano B – 26/02/2012

Deserto2

REFLEXÃO BÍBLICA – QUARESMA – 1º. DOMINGO – Ano B – 26.02.2012

Convertei-vos e crede no Evangelho !


Evangelho: Mc 1, 12-15

1. Os versículos de hoje seguem imediatamente o batismo de Jesus.

Vamos dividi-los em dois momentos:

a. no deserto – vv. 12-13: a tentação
b. na Galileia – vv. 14-15: o tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no evangelho.

a. no deserto – vv. 12-13: a tentação

2. A partir do batismo, Jesus é investido do Espírito Santo, e este o leva para o deserto (v.13). Quarenta dias e deserto, tanto no evangelho de Marcos quanto na Bíblia com um todo, são um baú cheio de recordações. Não são simples contagem de dias nem lugar geográfico, mas “tempo e lugar teológicos” É aí que João Batista se apresenta pregando a chegada do “forte” (1,4-7), aquele que vai vencer o mal. João Batista se apresenta no deserto, em oposição a Jerusalém e ao Templo, sede do poder político, econômico e religioso da época.

3. O povo de Deus passou quarenta anos no deserto, organizando-se, lutando, perdendo e vencendo, até caminhar para conquistar a terra da promessa (cf. Ex 16,35). Marcos abre o baú da memória do povo e ajuda a ver que Jesus vai inaugurar novo e definitivo êxodo, concretizado na pregação e na prática.

4. Quarenta anos recorda:
- recorda o tempo que durou o dilúvio, depois do qual surgiu a humanidade renovada na pessoa do justo Noé (Gn 97,12);
- lembram também os 40 dias e noites que Moisés permaneceu no monte Horeb para receber a aliança (Ex 24,18; 34,28; Dt 9,11);
- fazem ainda pensar nos quarenta dias e quarenta noites que Elias caminhou, alimentado pelo anjo do Senhor, até chegar ao Horeb (1 Rs 19,8), o monte de Deus; depois dos quais provoca mudanças radicais no Reino do Norte.
- lembram ainda os 40 anos que o povo de Israel peregrinou pelo deserto (Dt 2,7).
***** Todos esses aspectos repercutem na apresentação de Jesus: com ele tudo recomeça (como com Noé), chega a nova aliança (a antiga veio por Moisés) e aproxima-se a mudança radical (superior à de Elias).

5. Marcos afirma que Jesus permaneceu no deserto por quarenta dias e ali foi tentado por Satanás (vv.12-13a). O evangelho não revela o conteúdo da tentação sofrida. È que ela irá aparecer constantemente na vida do Mestre. Satanás (= adversário) quer di-zer pessoas e sistemas que se opõem ao projeto de Deus a ser anunciado e realizado na pregação e na prática de Jesus (cf. 1,36-37; 8,33; 12,13).

6. No deserto, o Mestre vive novo tipo de relação. Os animais selvagens recordam a realidade nova anunciada por Isaías 11,1-9. Jesus inaugura novas relações de pes-soas entre si e com toda a criação, e isso é fruto do Espírito que age nele (cf.v.12). No deserto, Jesus é servido pelos anjos, ou seja, é sustentado pelo próprio Deus, que o declarou seu Filho e Servo para instaurar o Reino.

b. na Galileia – vv. 14-15: o tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no evangelho.

7. Marcos situa rapidamente o contexto em que apareceu o programa de Jesus, sintetizado pela primeira declaração do Mestre nesse evangelho. Temos uma vaga indica-ção de tempo (“depois que João Batista foi preso”) e de lugar (“Jesus foi para a Galileia”, v.14). O mensageiro de Jesus foi preso. Marcos dirá, mais adiante, quais os motivos da pri-são do Batista e as razões que o levaram à morte (cf. 6,17ss). Esse dado é importante. O mensageiro mexeu com os interesses e privilégios dos poderosos.
E aí? O que irá acontecer com Jesus?

8. Aos poucos o evangelho mostrará que Jesus, o “forte” (1,7), não se deixa amedrontar pelos poderosos, vencendo os mecanismos que geram morte para o povo. A Galileia é o lugar social onde Jesus inicia a sua atividade. Essa região era sinônimo de marginalidade, lugar de gente sem valor e impura. É no meio dessa gente e a partir dela que Jesus anuncia seu programa de vida: “O tempo já se cumpriu, e o Rei-no de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no Evangelho” (v.15). Depois que ressuscitou, o Mestre convida os discípulos a descobri-lo vivo na Galileia (cf. 16,7), si-nal de que a prática de Jesus em nada difere da dos que o desejam seguir.

9. O programa de Jesus (v.15) consta de três momentos:
- O tempo já se cumpriu.
- O Reino de Deus está próximo.
- Convertam-se e creiam na Boa Notícia.

10. Em primeiro lugar ele anuncia que “O tempo já se cumpriu”. A espera da libertação chegou ao fim. Deus está presente em Jesus, atuando seu projeto de vida e liberdade. O caminho de Deus e o caminho dos marginalizados são uma coisa só. O desejo expresso em Is 63,19 (“quem dera rasgasses o céu para descer!”) se cumpriu, pois com Jesus o céu se rasgou (cf. Mc 1,10) e o Deus invisível se tornou gente no meio dos empobrecidos. Fez-se pobre como eles.

11. Em segundo lugar, Jesus anuncia que “o Reino de Deus está próximo”. Deus tomou a decisão de reinar. Por que o Reino de Deus está próximo? Porque a realeza de Deus vai tomando corpo através dos atos libertadores que Jesus realiza ao longo do evangelho. Está sempre próximo também mediante a prática dos seus dis-cípulos, aos quais confiou a continuação daquilo que anunciou e fez. O Reino é uma realidade dinâmica. Refazendo a prática de Jesus no tempo, as pessoas e as comu-nidades vão abrindo espaços para que o Reino se torne realidade.

12. Em terceiro lugar, Jesus diz; “convertam-se e creiam na Boa Nova”. Conversão é sinônimo de adesão à pratica de Jesus. A libertação esperada, o céu rasgado, de nada adiantariam se as pessoas que anseiam pela libertação continuassem amarradas aos esquemas que mantêm uma sociedade desigual e discriminadora. O evangelho de Marcos é apenas o início da Boa Nova da libertação trazida por Jesus (cf. 1,1). Ela se tornará realidade mediante o compromisso das pessoas e comunidades que dizem sim ao Mestre.

1ª. Leitura: Gn 9, 8-15

13. Os versículos de hoje situam-se logo após o dilúvio e são de tradição sacerdotal. Com Noé, homem justo, a humanidade renasce do caos gerado pela violência e pelo mal. Isso nos ajuda a crer que a humanidade pode se salvar do caos, desde que as pessoas pratiquem a justiça.

14. O dilúvio, símbolo do mal que ameaça destruir o mundo, terminou. A vida recomeça a partir das pessoas justas, a nova criação, com as quais Deus faz aliança para sempre: “De minha parte, vou firmar minha aliança com vocês e com os seus descen-dentes … com todos os animais da terra que saíram com vocês da arca” (vv.9-10). O resultado da aliança de Deus com Noé, com seus filhos e com toda a criação é este: “Nenhum ser que respira será novamente exterminado pelas águas de um dilúvio, e não haverá mais dilúvio para destruir a terra” (v.11).

15. Desses versículos tiramos algumas conclusões.
15.1. A primeira nasce da constatação de que Deus faz aliança não somente com Noé, com sua família e descendente, mas também com todos os animais da terra que saíram da arca (cf.v.10), ou seja, com toda a criação. É uma aliança universal. Esta se encontra, novamente, nas mãos de Deus, como no início (cf.Gn 1-2).
15.2. A segunda conclusão brota do v. 11: Deus quer a vida e por isso, torna-se aliado da humanidade na luta pela continuidade e preservação da vida, não só a das pessoas, mas da natureza como um todo.
15.3. A terceira conclusão é esta: se Deus é a favor da vida em todas as suas manifestações, o mal, a destruição e todas as formas de morte não podem ser atribuídas a ele. Quem será, então, o responsável?

16. A aliança de Deus com Noé, com sua família, descendentes e animais da terra (= aliança com toda criação, para sempre), não exige, como as demais alianças do AT, um sinal concreto por parte do aliado de Deus (para Abraão, por exemplo, o selo da aliança foi a circuncisão; para os hebreus, o descanso do sábado). Há outro aspecto. A aliança com Abraão e com os hebreus exige compromisso do parceiro. Na aliança com Noé, Deus se compromete sozinho, independentemente do compromisso do aliado (Noé e os seus). Isso reforça a idéia de que Deus está, – para sempre e de modo irreversível, – compro-metido com a vida da criação. Cabe, portanto, ao ser humano o respeito e a corres-ponsabilidade na transmissão e preservação da vida.

17. O arco-íris é o símbolo da aliança de Deus com a humanidade: “Ponho o meu arco nas nuvens, como sinal da aliança entre mim e a terra. Quando eu cobrir de nuvens a terra, aparecerá o arco-íris. Então me lembrarei da minha aliança com vocês e com todas as espécies de animais vivos, e as águas nunca mais virão como dilúvio para destruir todo ser que respira” (vv.13-15). O arco, instrumento de guerra, é trans-formado em instrumento de paz e aliança para a vida. E para nós, quais são hoje os sinais de que Deus é nosso aliado na luta pela defesa da vida?

2ª. Leitura: 1 Pd 3, 18-22

18. A primeira carta de Pedro é um texto endereçado aos cristãos dispersos, migrantes forçados, que vivem como estrangeiros, passando por duros sofrimentos e perse-guições. Nos versículos de hoje é possível descobrir uma espécie de profissão de fé batismal: “Cristo morreu uma vez por causa dos pecados, o justo pelos injustos” (v.18a);
- “ele recebeu nova vida pelo Espírito” (v.18b);
- “desceu à mansão dos mortos” (cf .v.19);
- “subiu ao céu e está à direita de Deus” (v.22a).

19. Este é o núcleo central desta leitura. Em torno disto, o autor constrói algumas reflexões que ajudam os cristãos dispersos a entender e a vivenciar seus com-promissos batismais.

20. O tema da “descida de Jesus à mansão dos mortos” era muito caro aos primeiros cristãos. É a isso que o autor se refere nos vv. 19-20, fazendo uma ponte entre o tempo de Noé e o tempo dos primeiros cristãos. No passado, um pequeno grupo (oito pessoas) foi salvo pela ação do justo Noé, surgindo daí a nova humanidade. A descida de Jesus à mansão dos mortos provocou um encontro e um confronto dos que não foram salvos com a pessoa de Jesus: “Pelo Espírito, Jesus foi também pregar aos espíritos em prisão, isto é, aos que foram incrédulos antigamente…”

21. No tempo em que a carta foi escrita, os batizados eram minoria, mas são justamente eles os que provocam na humanidade inteira o confronto com o Evangelho de Jesus. Daí surgem a identidade e a missão dos batizados, e isso irá provo-car novas criaturas e nova humanidade. O batismo não é um rito, como os anti-gos ritos de purificação, ” mas, é o pedido de uma boa consciência para com Deus pela ressurreição de Jesus Cristo” (v.21). Ele confere, portanto, identidade nova, tornan-do as pessoas criaturas novas. E implica uma missão: fazer com que o mundo todo se confronte com as propostas do Evangelho, reconhecendo Jesus como único Senhor, pois a ele foram submetidos os anjos, dominações e poderes” (v.22b).

R e f l e t i n d o . . .

1. Celebramos o 1º. Domingo da Quaresma. Muitos jovens nem sabem o que é a Quaresma. Nem sequer sabem de onde vem o CARNAVAl, antiga festa do fim do inverno (no hemisfério norte) que, – na cristandade, – se tornou a despedida da fartura antes de se iniciar o jejum da Quaresma.

2. Quaresma (do latim quadragésima) significa um tempo de 40 dias vivido na proximidade do Senhor, na entrega a Deus. Na Quaresma, deixamos para trás as preocu-pações mundanas e priorizamos as de Deus. Vivemos numa atitude de volta para Deus, de conversão. Isso não consiste necessariamente em abster-se de pão, MAS SOBRETUDO em repartir o pão com o faminto e em todas as demais formas de justiça. Tal é o verdadeiro jejum (Is 58,6-8).

3. Depois de batizado por João Batista no rio Jordão, Jesus se retirou ao deserto de Judá e jejuou durante 40 dias, preparando-se para anunciar o Reino de Deus. A Igreja viu nesses 40 dias de preparação de Jesus uma imagem da preparação dos candidatos ao batismo. Assim como Jesus, depois desses 40 dias, se entregou à mis-são recebida de Deus, os catecúmenos eram, depois de 40 dias de preparação, incorpora-dos a Cristo pelo batismo, para participar da vida nova. Batismo que era celebrado na noite da Páscoa, noite de ressurreição.

4. A meta da Quaresma é a Páscoa, o batismo, a regeneração para uma vida nova. Para os que ainda não receberam o batismo – os catecúmenos – isso se dá no sacramento do batismo na noite pascal. Para os já batizados, na conversão sempre necessária em nossa vida cristã: daí o sentido da renovação do compromisso batis-mal e do sacramento da reconciliação nesse período.
Conversão e renovação, se preciso também arrependimento pelas infidelidades, mas o tom principal é a alegria pela Boa-Nova e por Deus, que em Cristo, renova e transforma nossa vida.

5. A primeira carta de Pedro recorda os fundamentos da nossa fé e nossos compromissos batismais. Nessa quaresma é possível nos confrontarmos com o Evangelho de Jesus Cristo? Confrontar nossa vida com a mensagem e a prá-tica de Jesus, o Nazareno?

6. Marcos apresenta Jesus sendo tentado por Satanás no deserto. E isso indica e aponta para um novo Êxodo. Se Satanás é a encarnação de pessoas e estru-turas que geram a morte, como descobri-lo e vencê-lo no que diz respeito à situa-ção de quem está na exclusão? Quem precisa converter-se: o excluído ou nós, ou ambos? Se é verdade que Jesus inaugura novas relações das pessoas entre si e com toda a criação, o que isso representa para os excluídos?

7. Deus sempre oferece novas chances. Incansavelmente deseja que o ser humano viva, mesmo sendo pecador (cf. Ez 18,23). Sua oferta tem pleno sucesso com Jesus de Nazaré. Este é verdadeiramente o seu Filho (Mc 1,11). Impelido por seu Espírito, enfrenta no deserto as forças do mal, mas vence e os anjos do Altíssimo o servem. Por sua fidelidade na tentação, alcança um novo paraíso. Nas próximas semanas, o acompanharemos em sua subida a Jerusalém, obediente ao Pai. Será a verdadeira prova, na doação até a morte, morte de cruz. E “por isso”, Deus o exaltou… (cf Fl 2,9).

8. Jesus, porém, não vai sozinho. Leva-nos consigo. Com ele somos imersos no batismo e saímos dele renovados, numa nova e eterna Aliança. Portanto, a liturgia de hoje é como o início de uma grande catequese batismal: preparamo-nos para o batismo e para a renovação do nosso batismo, que é a participação na reconciliação que o sacrifício de Cristo operou por nós (cf. Rm 3,21-26; 5,1-11; 6,3). Mergulhar com ele na provação que nos purifica, é o grande desafio da Quaresma na nossa vida. Mas à humanidade toda, – tanto a Noé como aos batizados, Deus dá novas chances: eis o tempo de conversão! Nisso consiste a revelação do íntimo do seu ser, que é, ao mesmo tempo, bondade e justiça: “Ele reconduz ao bom caminho os pecadores; aos humildes conduz até o fim, em seu amor!” (Sl 25,8-9).

9. Gênesis 9,8-15 afirma que Deus está comprometido, para sempre e de modo irreversível, com a vida da humanidade como um todo. Aliás, desde a criação Deus sempre esteve presente na vida dos homens. Como isso repercute na nossa vida? Como isso repercute na vida dramática dos excluídos e suas famílias?

10. O mal tem muitas faces e está presente desde o início da humanidade. As águas do dilúvio representavam – para os antigos – um desencadeamento das forças do mal. Mas quem tem a última palavra, na criação, é o amor de Deus. Deus não quer destruir o homem, ele impõe limites ao dilúvio, que não mais voltará a destruir a terra. No fim do dilúvio, Deus repete o dia da criação, em que ele venceu o caos originá-rio, separou as águas de cima e de baixo e deu um lugar ao homem para morar. Faz uma nova criação, melhor que a anterior, pois acompanhada de um pacto de pro-teção. O arco-íris, que no fim do temporal nos alegra espontaneamente, é o sinal natural desta aliança.

11. A nossa quaresma: começamos a quaresma deste ano. Um tempo que nos prepara para a celebração da vitória de Jesus sobre o sofrimento e a morte, e … tempo de conversão. De todos os lados escutamos clamores de solidariedade e a fraternidade não pode deixar-nos indiferentes. Este é um tempo especial – tempo de graça – que nos faz esperar e agir, pois a última palavra não pertence à morte, mas à vida. Aquele que vai ser crucificado será ressuscitado para que todos tenham vida em plenitude. Deus é nosso aliado na luta pela vida (ele vence a morte!), aliado de toda a criação. E a prática de Jesus o confirma, pedindo nossa colaboração solidária na implantação do projeto de Deus.

12. COMPLEMENTOS ESCLARECEDORES da 2ª. leitura: sobre o Batismo e sobre a Descida à Mansão dos Mortos.

Para termos um melhor esclarecimento do texto da 2ª. leitura, transcrevemos aqui notas explicativas da Bíblia de Jerusalém, da Bíblia do Peregrino e do Novo Comentário Bíblico São Jerônimo NT.

12.1. Batismo e nossos compromissos batismais

12.1.1. Da Bíblia de Jerusalém: – comentário 1 Pd 3,18 letra c: ”Todo o trecho (3,18-4,6) contém os elementos de uma antiga profissão de fé: morte de Cristo (3,18), a descida à mansão dos mortos (3,19), a ressurreição (3,21d), o sentar-se à direita de Deus (3,22), o julgamento dos vivos e dos mortos (4,5).

12.1.2. Da Bíblia do Peregrino: – comentário nota 1 Pd 3, 17-22: ”Voltando ao tema favorito da carta, o sofrimento inocente, introduz uma profissão ou instrução batismal, que contém um dos textos mais enigmáticos do NT.

Vejamos o que está claro no texto.
- Primeiro: a morte redentora de Cristo, de alcance universal e definitivo, irrepetível (cf. Hb 6,6; 9,26), que conduz o homem para Deus, consumando a reconciliação (2Cor 5,20).
- Segundo: a morte de Jesus por sua condição humana (de carne) e a ressurreição pela ação do Espírito vivificante (Jo 6,63; Rm 8,10-11; 1 Cor 15,44).
- Terceiro: a ascensão e senhorio universal ou glorificação (At 1,10; Ef 1,20-21).
- Quarto: a virtude “salvadora” do batismo em função da ressurreição de Jesus Cristo, e que inclui: uma “boa consciência”, não mais turbada (Sl 32,2), e um compromisso pessoal com Deus. Isso é claro e representa uma síntese doutrinal, que bem pode proceder de ritos ba- tismais primitivos”.

12.2. Sobre a descida à mansão dos mortos.

12.2.1. Da Bíblia de Jerusalém: – comentário 1 Pd 3,19 nota e: ”Alusão provável à descida de Cristo ao Hades (cf. Mt 16,18) entre a sua morte e a sua ressurreição (Mt 12,40, At 2,24.31; Rm10,7; Ef 4,9; Hb 13,20), ao qual foi “em espírito” (cf. Lc 23,46), ou antes, segundo o Espírito (Rm 1,4) enquanto a sua “carne” estava morta na cruz (Rm 8,3s). Os “espíritos em prisão” aos quais ele “pregou” (ou “anunciou”) a salva-ção são, segundo alguns, os demônios acorrentados de que fala o livro de Henoc (alguns, corrigindo o texto, atribuem esta pregação a Henoc e não a Cristo): nesta ocasião eles foram então submetidos ao seu domínio de Kyrios (v. 22; cf. Ef 1,21s; Fl2,8-10), enquanto aguardavam sua sujeição definitiva (1 Cor 15,24s). Outros querem ver neles os espíritos dos mortos que, embora punidos no dilúvio, são, entretanto, chamados para a vida pela “paciên-cia de Deus” (cf. 4,6). Mateus 27,52s contém uma alusão a uma liberação dos “santos”, operada por Cristo, entre a sua morte e a sua ressurreição. Esses “santos” eram justos que esperavam a sua vinda (Hb 11,39s; 12,23), para entrarem com ele na “santa cidade” escatológica. ”

12.2.2. Da Bíblia do Peregrino: – comentário 1 Pd 3, 19-20 nota. ”O enigmático está nos vv. 19-20, ou seja, a pregação de Jesus às “almas encarceradas” de antepassados. O enigma não foi resolvido até agora, antes, tem provocado múltiplas explicações conjecturais. Entre todas, proponho uma leitura ba-seada na mentalidade do AT sobre a existência no além-túmulo. Quando morre, o homem “desce” pelo sepulcro ao Xeol, mundo subterrâneo e tenebroso dos mor-tos, que possuem uma existência umbrática (como os ‘fantasmas” do nosso folclore). Cf. Is 14; Ez 32, etc. (Não tem sentido no AT dizer que o corpo inerte fica no sepulcro e a alma separa-da ‘desce ao inferno’ ). Nesse mundo dos mortos encontram-se, como grupo repre-sentativo, homens contemporâneos de Noé, a quem o patriarca anunciava o dilúvio e não lhe deram atenção. ”

12.2.3. Do Novo Comentário Bíblico S. Jerônimo – Novo Testamento ”V. 18. Cristo sofreu ["morreu na BJ] … O vocabulário de 1 Pd e o contexto exigem a leitura “sofreu” (cf.3,14.17; 4,1). Na carne … no espírito: esta distinção não é a de “corpo” e “alma” que se encontra na filosofia grega. Deste modo, 3,19 não se refere à atividade da “alma” de Cristo. O texto se refere a duas esferas da existên-cia de Cristo, a de sua vida terrena e a de seu estado como Senhor ressuscitado, transformado pelo Espírito (cf. Rm 1,3; 1 Cor 15,45; 1 Tm 3,16). No qual foi pregar aos espíritos em prisão: a interpretação universal do termo “no qual” por parte dos co-mentaristas antigos da língua grega favorecem a tradução “no qual” como equivalente a “e em seu espírito”. Cristo fez sua proclamação como Senhor ressurreto. Aos espíritos em prisão: no uso do NT, “espíritos” sem uma expressão identificadora (cf.Hb 12,23) , significa “seres sobrenaturais” e não “almas humanas”. Em 1 Henoc, um livro bas-tante popular na época do protocristianismo, Henoc, em uma missão recebida de Deus, foi e anunciou aos anjos rebelados (cf.Gn 6,1-2) que eles tinham sido condenados à prisão. Nesta tradição, a rebelião dos anjos é expressamente ligada com o dilúvio. Em um desenvolvimento posterior, Henoc cruza os céus e se encontra com os anjos rebeldes aprisionados no segundo céu (2 Henoc7,1-3). A história de Henoc é aplicada ao Cristo ressurreto em 1 Pd 3,19, o qual, em sua ascensão, atravessou “todos os céus” (veja Ef 4-8; Hb 4,14; cf. 1Tm 3,16; Fl 2,9; Ef 1,20; 6,12; Hb 7,26). Todos os espíritos hostis foram sujeitados a ele (cf. Ef 1,20-22; 4,8; 1 Pd 3,22). Foi pregar: este verbo se refere à atividade de Cristo após sua ressurreição corpórea. Tal ida foi entendida natural-mente como sua ascensão ao céu (cf.3,22; At 1,10-11). … Pregar (em grego ekeryxen) significa “atuar como arauto” . Aqui Cristo proclama a si mesmo como “Senhor” (cf. Fl 2,11).

. . . Assim como em 3,22, declara-se que o poder dos espíritos hostis chegou ao fim. Tanto em 3,19 como em 3,22, o autor não está interessado na reação psicológica dos espíritos, mas unicamente na libertação dos seres humanos do poder desses espíritos.

Material Elaborado pelo Prof. Ângelo Vitório Zambon
Comissão Arquidiocesana de Liturgia – Campinas

Fontes: Bíblia de Jerusalém, Bíblia do Peregrino, Dicionário Bíblico (Mckenzie), Liturgia Dominical (Konings), Dicionário de Liturgia, Vida Pastoral, Homilias e Sugestões (BH), Roteiros Homiléticos (Bortolini).

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2 Comentários

  1. ROSANGELA BRAZ SOARES DE OLIVEIRA

    sex 24th fev 2012 at 8:18

    QUE ESTAS PALAVRAS TRAGA LUIZ AOS CORAÇÃES PERTUBADO PALA FALTA DE AMOR E CONVERSÃO.

    Responder
  2. Maria Rosa

    sáb 25th fev 2012 at 14:32

    ótimo, muito bem explicado, bom para quem trabalha na pastoral liturgica e também para os leigos que querem entender melhor a nossa missa muito obrigada
    Paz de Cristo

    Responder

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